Vimos na seção anterior que a Asist é um importante instrumento de gestão e planejamento para conhecer a situação de saúde da população trabalhadora e intervir nas suas determinações, a partir de ação crítica e estratégica comprometida com a melhoria da qualidade da intervenção. Parte das informações que precisamos para compor uma Asist pode vir da epidemiologia.
A epidemiologia é uma disciplina voltada para a identificação de situações e/ou problemas de saúde, que investiga e estuda os acontecimentos de saúde e doença por meio de dados numéricos, cálculos matemáticos e procedimentos estatísticos (ALMEIDA FILHO et al., 2013).
Para qualquer estudo epidemiológico, a primeira etapa é, justamente, descrever os elementos, identificar os padrões de distribuição de doenças/agravos/exposição aos grupos afetados e possíveis tendências e grupos vulneráveis, entre outros.
A epidemiologia aplicada à saúde do trabalhador tem dupla tarefa:

Esses conhecimentos associados permitem determinar o caminho e a experiência de exposição do trabalhador (MOURA-CORREA, 2019), a fim de estabelecer medidas de prevenção da saúde de trabalhadores. Para isso, são utilizados indicadores de análise e interpretação dos dados coletados de modo sistemático e contínuo ao longo do tempo, gerando informações que permitm modificar as fontes de exposição e identificar grupos ocupacionais de expostos (SANTANA; FERRITE, 2013).
Indicadores
Indicadores são informações produzidas a partir de dados diversos, permitindo a comparação entre o que foi observado em determinado local e o observado em outros locais ou em outros momentos. Essas comparações nos possibilitam analisar a situação atual de saúde por meio de comparações e perceber alterações nesse quadro ao longo do tempo (SOARES; ANDRADE; CAMPOS, 2017).
Discutiremos alguns indicadores de interesse para a Visat ainda nesta UA, mais adiante.
Vejamos alguns dos dados que a pesquisa em epidemiologia aplicada à saúde do trabalhador pode nos fornecer:
Pessoa
Quem são essas pessoas?
Idade, sexo, ocupação, renda, escolaridade, estado civil etc.
Lugar
Onde ocorreram os casos?
Área urbana, área rural, empresas, comunidade etc.
Tempo
Quando ocorreram? Mês, ano, período, calendário.
Fonte: Adaptado de Rothman, Greeland e Lash (2011, p. 48.).
Um exemplo do método em epidemiologia descritiva aplicada em serviço pode ser analisado no livro As doenças dos trabalhadores, do médico italiano Bernardino Ramazzini (1633-1714). Ele é considerado o pai da saúde ocupacional, pois conseguiu identificar e descrever com precisão, no ano de 1700, os riscos químicos e físicos de 52 ocupações. Sua grande lição é: “Pergunte onde trabalha e como é o trabalho do paciente.”
Bernardino Ramazzini publicou seus achados na obra De Morbis Artificum Diatriba (em 1700), traduzida para o português como As doenças dos trabalhadores.

Nenhum dos riscos das 52 ocupações que Ramazzini descreveu em 1700 foi refutado até hoje.

Ramazzini introduziu na sua prática em saúde a pergunta “Qual a sua profissão?”. Com isso, foi capaz de relacionar sintomas com as fontes de exposição no trabalho. Além de ouvir os trabalhadores, também visitava os locais onde as atividades eram realizadas para entender melhor os quadros que observava.
Dentre muitos, podemos destacar alguns ensinamentos relevantes deixados por ele:
De sua ampla obra, destaca-se que uma investigação epidemiológica pode ser muito simples, a partir da observação e do registro de informações no dia a dia do serviço de saúde. Conversar com o trabalhador de forma interessada e não questionadora nos fornece informações valiosas, pois nem sempre os dados clínicos subsidiam a compreensão de todos os fatores de risco.
Considerando que os efeitos no corpo decorrem de muitas atividades exercidas pela pessoa, vale a pena observar exatamente como se caracterizam o espaço, o território ou a moradia dela.
Esse espírito investigativo pode ser subsidiado por diferentes fontes primárias (como, por exemplo, entrevistas) e secundárias (como, por exemplo, documentos já existentes), cujos dados precisam ser organizados num formato descritivo que possibilite verificar:



Conversar de maneira interessada com os trabalhadores, coletar informações por entrevistas e documentos e conhecer os diferentes espaços de vida das pessoas são fontes importantes para compor a análise da situação de saúde.
A partir daí, é possível utilizar métodos adequados para análise das informações, visando orientar medidas de intervenção, o que demonstra possibilidades para eliminar e/ou controlar os fatores de risco.
O primeiro passo é a identificação dos dados pertinentes e das informações a serem priorizadas e valorizadas.
Dado
Definido como “um valor atribuído a algo, a um fato ou circunstância, não processado” ou “o número bruto que ainda não sofreu qualquer espécie de tratamento estatístico”; ou, ainda, “a matéria-prima da produção de informação”. Exemplos de dados: idade, sexo, peso, tipo de vínculo empregatício (empregado, autônomo etc). Idade e peso são dados quantitativos, pois são apresentados em números. Sexo e tipo de vínculo empregatício são dados qualitativos.
Informação
Entendida como “o conhecimento obtido a partir dos dados” ou “o dado trabalhado”; ou “o resultado da análise e combinação de vários dados”, o que implica interpretação por parte do usuário. É “uma descrição de uma situação real, associada a um referencial explicativo sistemático”.
Clique nos cards para ver exemplos.
Fonte: Adaptado de Guia de vigilância epidemiológica (BRASIL, 2009).
O conjunto de dados coletados é registrado e armazenado num banco de dados em sistemas de informações próprios para o seu gerenciamento, disponibilizados em uma base de dados.

Para a manipulação e análise desses dados, realizam-se os procedimentos em matrizes ou planilhas – em geral as planilhas do programa Excel® são as mais utilizadas. Quando o banco de dados contém informações individuais, normalmente cada linha da planilha corresponde a um indivíduo ou pessoa, e as colunas representam cada informação/dado dessa pessoa. Assim, uma base de dados pode conter muitos dados de milhares de pessoas.
O exemplo a seguir ilustra uma planilha de um arquivo em Excel® com as informações de 11 pessoas. Observe que algumas colunas têm espaços vazios, como na variável “CBO” (coluna L, linhas 3, 7, 8 e 11), o que representa a ausência de registro ou dados faltantes (sub-registro dessa variável).

Vamos refletir?
Você já trabalhou com dados primários para pensar a sua atuação voltada para a saúde do trabalhador? Se sim, como foi essa experiência?
Uma investigação epidemiológica pode ser iniciada numa empresa, num município, estado ou país. Definidos os limites desse território, os dados podem ser coletados exclusivamente para esse fim (dados primários) ou a partir de dados preexistentes (secundários).
A epidemiologia aplicada à saúde do trabalhador utiliza dados que podem ser compostos de fontes primárias, colhidos diretamente do trabalhador, ou por estudos de projetos.
Conforme descrito por Almeida e Santos (2021), os dados primários podem ser coletados por meio de entrevistas, questionários, observações participantes e narrativas. As técnicas são definidas e produzidas para a investigação planejada, que pode ocorrer, inclusive, durante uma ação de fiscalização.
Os dados denominados primários podem ser compreendidos como aqueles registrados pelo contato direto com os trabalhadores que informam sobre o seu estado de saúde e/ou exposição, durante abordagem individual ou grupal. Já os secundários são de acesso aberto, oriundos de documentos e de registro de dados do SUS.
Entre as bases secundárias, pode-se exemplificar a análise documental ou a da ação de vigilância dos processos produtivos, como os dados registrados pelos fiscais no Sistema de Informações em Trabalhador (Sistra/SC), resultantes de inspeção e da aplicação dos procedimentos administrativos no ramo produtivo da agroindústria e dos postos de revenda de combustíveis a varejo (PRCV).
Outras bases de dados de organismos governamentais, especialmente do SUS, e de organismos internacionais estão disponíveis na internet e compartilham dados, como:

Organização Internacional do Trabalho (OIT)

Organização Mundial da Saúde (OMS)

Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)

Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc)
Em relação aos dados nacionais, o principal acesso às bases secundárias são os Sistemas de Informações em Saúde (SIS), por serem sistemáticos, de abrangência nacional, relativos a diversos segmentos do sistema de saúde brasileiro e oferecerem dados referentes à mortalidade, à morbidade e às doenças de notificação compulsória.
Essas bases de dados permitem a construção de indicadores em saúde.
Conheça algumas dessas bases de dados:
No Brasil, temos bases de dados populacionais e bases que já oferecem alguns indicadores de saúde do trabalhador.
1. Bases de dados populacionais:
2. Bases de indicadores de saúde:
O Ministério da Saúde disponibiliza uma série de indicadores úteis para a Saúde do Trabalhador em sua plataforma:
Sistemas de informação em saúde do SUS
O SUS tem um conjunto de sistemas de informação em saúde que permitem registrar, com especificidades, uma série de dados relevantes para a saúde da população. Esses sistemas são fornecidos e mantidos pelo departamento de informática do SUS – o Datasus. Veja alguns sistemas de interesse para a Visat:
Sinan – o Sistema de Informação de Agravos de Notificação “é alimentado, principalmente, pela notificação e investigação de casos de doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória” (SISTEMA DE INFORMAÇÃO DE AGRAVOS DE NOTIFICAÇÃO, [20--]).
SIH – o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registra as internações para fins de pagamento pelo governo federal aos demais entes, e pelo SUS a estabelecimentos de saúde (IBGE, 2022).
SIM – o Sistema de Informações sobre Mortalidade, como o próprio nome já diz, coleta dados sobre mortalidade no país.
Além dessas bases de dados apresentadas, há outras de interesse para a Visat, como a plataforma SmartLab, um conjunto de bases de dados disponibilizadas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).

No quadro a seguir, apresentamos os observatórios digitais e as dimensões de dados do SmartLab.
A Gerência de Saúde do Trabalhador (Gesat) do estado de Santa Catarina, por exemplo, normatizou a Pactuação de Diretrizes para Vigilância, na qual inclui os processos de inspeção, regulação e monitoramento das ações com base nos indicadores de frequência de acidentes de trabalho por ramo de atividade econômica.
Para o planejamento das prioridades da Visat na macrorregião de saúde, é possível acessar a Iniciativa SmartLab – Promoção do Trabalho Decente Guiada por Dados –, no Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, e selecionar as três atividades econômicas com maior registro de comunicação de acidentes de trabalho.
Em Santa Catarina, a equipe de Saúde do Trabalhador utiliza dados do Sinan e do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SMARTLAB, [20--]) para definir e identificar as prioridades de intervenção e planejar ações de Visat, bem como construir os indicadores que compõem a pactuação intergestores para fiscalizar, regular os setores produtivos e monitorar as condições de saúde dos trabalhadores.
Com o apoio dos estudos dirigidos dos tutoriais e o uso das bases de dados do SmartLab, podem ser estimadas medidas de epidemiologia, como prevalência, incidência e tendência.
Mas você sabe o que são essas medidas?
Na próxima seção, vamos ver o que são indicadores e os principais relacionados à Visat.