Módulo 5 Inatividade física

Introdução

Inicialmente, convidamos você para assistir ao vídeo 150 minutos de exercícios por semana, com recomendações simples da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a prevenção de várias doenças crônicas não transmissíveis.

Você faz parte do grupo de pessoas consideradas ativas, segundo a OMS? Em sua área de atuação os serviços de saúde participam de iniciativas que estimulam a prática de atividades físicas nas comunidades? Em que precisamos avançar?

Este módulo propõe discutir a estreita relação que há entre epidemiologia, atividade física, qualidade de vida e saúde física e mental, com base na literatura científica sobre a temática, que abrange múltiplas publicações e experiências bem-sucedidas de programas de promoção de atividades físicas nas comunidades. Os conteúdos selecionados para o estudo estão organizados em seções:

  • Conceituação de atividade física, exercício físico e comportamento sedentário
  • Dados epidemiológicos relativos à inatividade física
  • Melhores apostas da OMS para a prática regular de atividade física
  • Considerações finais

O que são doenças crônicas não transmissíveis

Foto: Ketut Subiyanto/Pexels.

Conheça alguns mitos e verdades sobre a musculação na infância e adolescência, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Já é consenso, em várias áreas do setor saúde, que a atividade física é importante para o desenvolvimento saudável. Deve ser praticada por todos, em qualquer idade e condição física, nas tarefas cotidianas e no deslocamento de um lugar para outro, ao longo da jornada de trabalho ou estudo, ao realizar tarefas domésticas e no tempo livre. Ela deve se tornar um hábito na vida do ser humano e quanto mais cedo for incentivada, maiores os benefícios para a saúde (BRASIL, 2021a).

A atividade física é boa para o coração, o corpo e a mente. A prática regular pode prevenir e ajudar a controlar doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e câncer, que causam quase três quartos das mortes em todo o mundo. Também pode reduzir sintomas de depressão e ansiedade, aguçar o pensamento e a aprendizagem, proporcionar bem-estar geral, melhorar a disposição física e promover a interação social. Qualquer prática de atividade física é melhor do que nenhuma, e quanto mais, melhor (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).

Também não é uma invenção do nosso tempo! Sabe-se que o homem da pré-história enfrentava grandes desafios para  sobreviver;  ter força e condicionamento físico era crucial para se manter vivo, pois precisava andar muitos quilômetros em busca de lugares seguros e compatíveis com a vida, correr de animais ferozes, lutar com os da mesma espécie por comida, ou mesmo com outros animais. Tudo isso demandava que estivesse com ossos e músculos fortes para superar os obstáculos (RAMOS, 1983). 

Com a civilização e o surgimento das guerras, a preparação física para as lutas passou a ser necessária. Na era industrial, grande parte das atividades, antes atribuídas à força física do homem, passou a ser desempenhada por equipamentos específicos. Com isso, o homem foi se tornando mais sedentário. Daí surgiu a necessidade de exercitar-se intencionalmente até chegarmos aos nossos dias e concluirmos que atividade física, mais que desenvolvimento de músculos e força, é fundamental para manutenção da saúde e prevenção de doenças (RAMOS, 1983).

Você sabia que existe uma diferença entre atividade física e exercício físico?

O Guia de atividade física para a população brasileira traz as primeiras recomendações e informações do Ministério da Saúde para que a população tenha uma vida ativa, essencial para a promoção da saúde e melhor qualidade de vida (BRASIL, 2021a). Dessa publicação, extraímos alguns conceitos importantes para iniciar a nossa conversa. Veja a seguir (BRASIL, 2021a, p.7, 9):

Foto: Drazen Zigic/Freepik. 

É um comportamento que envolve os movimentos voluntários do corpo, com gasto de energia acima do nível de repouso, promovendo interações sociais e com o ambiente. Pode acontecer no tempo livre, no deslocamento, no trabalho ou estudo e nas tarefas domésticas. 

São exemplos de atividade física: caminhar, correr, pedalar, brincar, subir escadas, carregar objetos, dançar, limpar a casa, passear com animais de estimação, cultivar a terra, cuidar do quintal, praticar esportes, lutas, ginásticas, yoga, entre outros. 

A atividade física faz parte do dia a dia e traz diversos benefícios, como o controle do peso e a melhora da qualidade de vida, do humor, da disposição, da interação com as outras pessoas e com o ambiente. Enfim, você pode fazer atividade física em quatro domínios da sua vida: no seu tempo livre; quando você se desloca; nas atividades do trabalho ou dos estudos; e nas tarefas domésticas.

Foto: Freepik/Freepik.

Todo exercício físico é uma atividade física, mas nem toda atividade física é um exercício físico. Ou seja, o exercício físico é um tipo de atividade física planejada, estruturada e repetitiva, cujo objetivo é melhorar ou manter as capacidades físicas e o peso adequado.

Foto: Firmbee/Pixabay.

Envolve atividades realizadas quando você está acordado e sentado, reclinado ou deitado, gastando pouca energia. Por exemplo, quando você está usando celular, computador, tablet, videogame e assistindo à televisão ou à aula, realizando trabalhos manuais, jogando cartas ou jogos de mesa, dentro do carro, ônibus ou metrô.

Evite o comportamento sedentário. Sempre que possível, reduza o tempo em que você permanece sentado ou deitado assistindo à televisão ou usando o celular, computador, tablet ou videogame. Por exemplo, a cada uma hora, movimente-se por pelo menos cinco minutos e aproveite para mudar de posição e ficar em pé, ir ao banheiro, beber água e alongar o corpo. São pequenas atitudes que podem ajudar a diminuir o seu comportamento sedentário e melhorar sua qualidade de vida (BRASIL, 2021a, p. 9).
Saiba Mais

Assista à Entrevista com Pedro Hallal, coordenador geral do Guia de atividade física para a população brasileira, publicado em 2021. Ele explica o contexto em que foi elaborado e as perspectivas para a sua implementação por meio das políticas públicas.

Em sua rotina de trabalho, há hábitos sedentários entre os colegas e em você próprio? Que mudanças você propõe para manter todos ativos e saudáveis?

O sedentarismo é o quarto fator de risco para as DCNT. A Organização Mundial da Saúde estima que, em escala mundial, pelo menos uma em cada três pessoas não pratica os níveis de atividade física por ela recomendados (150 minutos de atividade moderada por semana). Entretanto, na região das Américas, essa proporção aumenta para uma em cada duas pessoas, elevando o risco de mortalidade em 20% a 30% (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011).

Muitos fatores contribuem para inibir a prática de atividade física, entre eles (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011):

Automatização de muitas funções no trabalho
Urbanização acelerada, geralmente sem planejamento
Inexistência de ciclovia
Transporte público precário
Substituição de formas de recreação ativa por atividades digitais, diante da tela do computador ou de outro dispositivo
Medo da violência
Aumento de renda e sedentarismo

Embora alguns efeitos do sedentarismo sobre a saúde sejam associados à obesidade, a atividade física, independentemente do peso, exerce efeitos protetores específicos ao reduzir o risco de DCNT e suas complicações. Em crianças, a prática de atividade física também está associada ao melhor desempenho escolar.

O planejamento das comunidades e das cidades e a capacidade das pessoas de se deslocarem em segurança a pé, de bicicleta ou utilizando o transporte público (o chamado “transporte ativo”) também parecem exercer influência importante sobre os níveis de atividade física e obesidade. Isso ressalta o quanto é importante o papel dos governos locais na promoção de ações dessa natureza, por meio de uma agenda multissetorial, conforme evidencia o estudo de Oliveira e Silva (2021).

Para Oliveira e Silva (2021), a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) é um dos mais bem-sucedidos exemplos de “Saúde em todas as políticas”, o que se aproximaria da ideia de agenda multissetorial, citada anteriormente.

Saiba Mais

Você conhece a expressão “Saúde em todas as políticas”?  

Ela foi cunhada pela OMS, que considera a estreita relação entre determinantes da saúde, inequidade em saúde e fatores sociais, ambientais e econômicos. Por conseguinte, entende a promoção da saúde segundo uma visão ampliada, que abrange outros setores da sociedade, tradicionalmente não vinculados à saúde, como a área do direito, receita federal, comércio, parcerias público-privadas (PPP), marketing, até mesmo indústrias que não tenham conflitos de interesses com o setor saúde.

O Programa Nacional de Controle do Tabagismo, discutido no Módulo 2, é um exemplo bem-sucedido de política intersetorial. Entre os anos de 2011 e 2017, possibilitou reduzir em 31% a prevalência de consumo de tabaco.

Com base no conceito “Saúde em todas as políticas”, Oliveira e Silva (2021) propõem a necessária interação entre saúde e transporte público, para favorecer e estimular a prática de atividade física pela população brasileira. Os autores consideram o transporte ativo como um dos fatores que podem propiciar a redução da obesidade. Esse tipo de locomoção inclui o caminhar e o uso de bicicleta, patinetes, entre outros meios. Mas, para a sua implementação, é necessário que os gestores tenham um planejamento urbano que inclua ciclovias, iluminação pública adequada, mitigação da violência, segurança de pedestres, além de outras políticas.

Como exemplos de experiências bem-sucedidas de transporte ativo, destacam-se a cidade de Nova York, que construiu cerca de 73 quilômetros de ciclovias em 2015, o que resultou em um ano de vida saudável a mais para seus moradores (GU; MOHIT; MUENNIG, 2016); e a cidade de Londres, que incluiu em sua estratégia o programa Healthy Streets (Ruas Saudáveis), para estimular a população a caminhar, pedalar e usar transporte coletivo em seus deslocamentos diários. No Brasil, em 2015, Joinville, no estado de Santa Catarina, instituiu o Plano Diretor de Transportes Ativos, com diretrizes para ampliar os deslocamentos a pé e de bicicleta e promover melhorias das condições de calçadas, passeios e ciclovias.

Como você avalia o nível de comportamento sedentário da população em sua cidade? O que propõe para a implementação de um programa de transporte ativo?

Saiba Mais

Sobre transporte ativo, com foco no conceito “Saúde em todas as políticas”, leia o artigo Ciências da atividade física como protagonista de uma agenda multissetorial de pesquisa e advocacy na promoção da mobilidade ativa.

A redução de 10% no sedentarismo até 2025 é uma das metas do Plano de Ação Global da OMS para a Prevenção e o Controle das DCNT (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011), também endossada pelo Plano de Ação da Opas para a Prevenção e o Controle de DCNT nas Américas (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2016, p. 14). No entanto, segundo Guthold et al. (2018), essa meta não deverá ser cumprida, pois mais de 1,4 bilhão de adultos em todo o mundo não praticam atividades físicas suficientes.

Os estudos de Guthold et al. (2018) corroboram as estimativas analisadas pela OMS ao demonstrarem que houve pouco progresso na melhoria dos níveis de atividade física entre 2001 e 2016. Os dados apontam que, se as tendências atuais continuarem, a meta global de 10% de redução da inatividade não será atingida até 2025 (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011).

A OMS também estima que 3,2 milhões de pessoas morrem a cada ano devido à inatividade física. Pessoas que são insuficientemente ativas têm entre 20% e 30% de aumento do risco de todas as causas de mortalidade. A prática de 150 minutos de atividade física moderada, por semana, reduz o risco isquêmico de doença cardíaca em aproximadamente 30%; o risco de diabetes, em 27%; e o risco de câncer de mama e cólon, em 21% e 25%, respectivamente. Além disso, diminui o risco de acidente vascular cerebral, hipertensão arterial, depressão, e contribui para o controle do peso corporal (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011). A Figura 1 compila as DCNT decorrentes.

Figura 1 – Sedentarismo e obesidade

Fonte: Guia prático: exercício físico e obesidade (DÂMASO, 2021, p. 7).

Você já ouviu falar sobre neurociência do exercício?

Refere-se a um campo da ciência que estuda como a prática de atividade física pode promover benefícios para a nossa saúde física, mental e social. Alguns autores destacam que essa pratica pode aumentar o nível de atenção, especialmente a concentração; melhorar a capacidade de retenção e recordação de memórias de curto e longo prazos; aumentar a capacidade de processos cognitivos; promover maior oxigenação das áreas cerebrais, dentre outros. Essas são algumas evidências da neurociência que relacionam a prática de atividades físicas aos processos cognitivos (ROCHA, 2019).

Pesquisas nessa área investigam os efeitos do exercício físico no funcionamento do cérebro. O Laboratório de Neurociência do Exercício (LaNex/UFRJ), criado pela professora Andrea Deslandes em 2010, apresenta duas linhas de pesquisa que avaliam “Exercício físico e Saúde mental” e “Exercício físico e Cognição”.

Evidências científicas vêm corroborando que o exercício físico tem ótimos resultados na saúde mental ao proporcionar a liberação de neurotransmissores, diminuindo mecanismos inflamatórios e melhorando a resposta imune; com isso, ocorrem maior autoestima e melhora dos sintomas de depressão, ansiedade, transtorno bipolar, dentre outros (GUERRERO-JIMÉNEZ, 2023).

O exercício físico também impacta na neurocognição, porque afeta várias funções cognitivas, desde a memória e atenção até o desempenho escolar. Quando fazemos exercícios, modificamos um pouco o modo como o nosso cérebro funciona; ele produz substâncias essenciais para cognição, aprendizado, saúde do cérebro, saúde mental. Os exercícios estimulam a produção de novos neurônios no hipocampo – uma área essencial para o nosso aprendizado –, no qual formamos novas memórias. Isso além de criar novos vasos, que promovem o aporte de nutrientes e oxigênio no cérebro. A produção de neurotransmissores durante e após os exercícios também atua na cognição e na regulação do aprendizado, da atenção, do prazer e da motivação.

Considerando a relação entre exercício físico e aprendizagem, temos dado a devida atenção às aulas de educação física em nossas escolas? Que benefícios essas aulas vêm propiciando aos estudantes?

Saiba Mais

Ouça o podcast Exercício físico e cognição, em que os professores Andrea Deslandes e Daniel Kreuger, da UFRJ, conversam sobre ganhos cognitivos nos alunos.

Estudos realizados por Ai et al. (2021) concluíram que campanhas de incentivo à prática de atividades físicas foram associadas a mudanças no comportamento sedentário; no entanto, a reação é mais incorporada quando as campanhas são positivas, ou seja, referem-se diretamente aos benefícios para a saúde, como melhora da disposição física, da memória, prevenção do câncer etc. Também concluíram que campanhas que relacionam o sedentarismo ao risco de doenças crônicas podem ser ineficazes, sobretudo em idosos (AI et al., 2021). Enfim, a prática de atividade física repercute não só na nossa saúde física, como também na saúde mental, cognição e memória, ampliando o escopo do campo das ciências e interligando neurociência e exercício.

Dados epidemiológicos relativos à inatividade física

De acordo com a OMS, 31% dos adultos maiores de 15 anos em todo o mundo estavam insuficientemente ativos em 2008 – 28% de homens e 34% de mulheres (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011).

O Gráfico 1 apresenta a distribuição das regiões do mundo segundo a OMS, o percentual da população ativa por homens e mulheres, bem como a estratificação por renda. As estratificações apontam que os homens são mais ativos que as mulheres em todas as regiões, e que a população é mais ativa em regiões com maior renda.

Gráfico 1 – Prevalência de atividade física insuficiente em adultos com mais de 15 anos, por idade, região da OMS e grupo de renda do Banco Mundial. Estimativas comparáveis, 2008

Fonte: Global status report on noncommunicable diseases 2010 (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011, p. 18).

No Brasil, os padrões de atividade física da população passaram a ser estudados recentemente. O inquérito telefônico Vigitel Brasil 2006-2021 (BRASIL, 2022) avalia a atividade física em quatro domínios e considera o primeiro como o mais passível de intervenção. São eles:

1. No tempo livre ou em atividades de lazer.
2. No deslocamento para o trabalho ou para a escola.
3. Nas atividades de trabalho ou de estudo.
4. Nas atividades domésticas.

O inquérito conclui que entre os adultos residentes nas capitais do Brasil, a prática de, no mínimo, 30 minutos de atividade física passou de 14,8% em 2006 para 14,9% em 2010. Homens e jovens com maior escolaridade são os mais ativos. Em 2010, 14,2% dos adultos foram considerados inativos, e 28,2% relataram assistir a três ou mais horas de televisão por dia (BRASIL, 2022). Entre os adolescentes, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 43,1% dos alunos avaliados foram considerados suficientemente ativos (com, pelo menos, 300 minutos de atividade física acumulada nos últimos sete dias); no entanto, 79,5% gastam mais de duas horas por dia em frente à televisão (IBGE, 2019).

A Opas (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2016) e a OMS (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020) recomendam 150 a 300 minutos de atividade aeróbica moderada a vigorosa por semana para adultos, incluídos os portadores de doenças crônicas ou incapacidades; e uma média de 60 minutos por dia para crianças e adolescentes.

Considerando os quatro domínios em que o Vigitel Brasil 2006-2021 avalia a prática de atividade física (BRASIL, 2022) e a realidade do território em que atua, que estratégias você sugere para compor o plano de prevenção das DCNT?

Estudo com dados do Vigitel 2019 evidenciou que a prática de atividade física no tempo livre está associada a fatores sociodemográficos e hábitos saudáveis, sendo mais prevalente entre os mais jovens, do sexo masculino, com maior escolaridade, cor branca, com plano de saúde, não fumantes e que consomem frutas e hortaliças (BRASIL, 2020). Ao comparar os dados do Vigitel 2010 e 2019, verificou-se nesse extrato da população um crescimento de cerca de 10% na prática de atividade física durante o tempo livre (Figura 2) (BRASIL, 2021b).

Figura 2 – Monitoramento da prática de atividade física de 2010 e 2019, capitais brasileiras e Distrito Federal

Fonte: Vigitel 2010 e 2019 (apud BRASIL, 2021b, p. 30).

Com base nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, notadamente o ODS 3, Saúde e Bem-Estar Social, que recomenda no item 3.4 reduzir em um terço a mortalidade prematura por DCNT (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2022), o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030 propõe metas para a redução da inatividade física (BRASIL, 2021b), conforme apresenta a Figura 3.

Figura 3 – Grupo de indicadores e metas para os fatores de risco para as DCNT

Fonte: PNS (2019), POF 2008-2009, PeNSE (2015) apud Brasil (2021b, p. 71).

O Gráfico 2 assinala a evolução do acréscimo de 30% na prevalência de atividade física no lazer até 2030.

Gráfico 2 – Monitoramento da meta, valor observado e previsto da prevalência da prática de atividade física no tempo livre em adultos (≥ 18 anos) no conjunto das capitais brasileiras e no Distrito Federal, 2009 a 2030

Fonte: Ministério da Saúde (BRASIL, 2021b, p. 74).

Retomando a recomendação da Opas (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2016) e da OMS (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020) sobre a prática de atividade física moderada ou vigorosa para todos, que benefícios ela também proporciona à saúde mental e às pessoas com deficiência?

Estudo de Lima et al. (2020) aponta que transtornos mentais, em geral, podem estar relacionados a maior risco para tabagismo, hipertensão e diabetes; pessoas com esse diagnóstico têm risco aumentado de 1,4% a 2,0% de desenvolver doenças cardiometabólicas em comparação com indivíduos sem transtornos mentais.  Cada vez mais surgem evidências na literatura científica sobre benefícios da atividade física à saúde mental; entre eles (HOSKER; ELKINS; POTTER, 2019):

  • melhor autopercepção e valor das próprias qualidades e habilidades;
  • maior propensão a expressar confiança em si mesmo;
  • maior engajamento em novas atividades e/ou novas situações;
  • maior tolerância ao sofrimento;
  • superação de novos desafios e novas tarefas.

Para as pessoas com deficiência, os benefícios também são evidentes, especialmente para melhor qualidade de vida, conforme destacado no Guia de atividade física para a população brasileira (BRASIL, 2021a, p. 44):

  • satisfação e bem-estar, ajudando a desfrutar de uma vida plena com melhor qualidade; 
  • desenvolvimento da autonomia para realizar atividades diárias; 
  • aumento da força muscular, resistência, coordenação motora, flexibilidade, agilidade e do equilíbrio; 
  • melhora da imunidade, atenção, memória e do raciocínio, reduzindo o risco de declínio cognitivo; 
  • melhora da circulação sanguínea e redução do risco de doenças do coração, diabetes, pressão alta e colesterol alto.

A prática de atividade física para todos remete ao conceito “Saúde em todas as políticas”. Que desafios você vislumbra para implementar um programa com essa magnitude? Que políticas públicas poderiam apoiá-lo?

Melhores apostas da OMS para a prática regular de atividade física

Antes de tratar das melhores apostas, cabe ressaltar que são evidências científicas que corroboram a inequívoca necessidade da prática diária e constante de atividade física para todas as pessoas, sem qualquer distinção, seja para a manutenção da saúde, seja para a melhora de algumas condições crônicas já estabelecidas. Portanto, associar o corpo esbelto e belo à prática da atividade física, como fazem as redes e mídias sociais, é uma visão sem respaldo científico e de exclusão social, e a população deve estar ciente disso.

Sobre as melhores apostas, no Plano de Estratégia Global para Prevenção e Controle de Doenças não Comunicáveis (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011) a OMS estimula os estados-membros a promover ações para elevar os níveis de atividade física na população, da seguinte forma (BRASIL, 2021a):

Crianças e jovens de 6 a 17 anos
Devem praticar diariamente 60 minutos de atividade física, de intensidade moderada a vigorosa
Maiores de 18 anos e idosos
Devem praticar, pelo menos, 150 minutos por semana de atividade física moderada. Ou, caso prefiram, devem praticar, pelo menos, 75 minutos por semana de atividade física vigorosa
Adultos e idosos com limitação de mobilidade
Devem praticar atividade física três ou mais dias por semana, para melhorar o equilíbrio e evitar quedas

Em sua cidade, a premissa de que a atividade física é para todas as pessoas de todas as idades vem sendo considerada nas iniciativas públicas de incentivo à prática? Em que precisamos avançar?

Saiba Mais

Para conhecer outras recomendações sobre a prática de atividades físicas em todos os ciclos da vida, assista ao vídeo Atividade física.

Consoante as recomendações da OMS, em especial sobre as melhores apostas para a prática regular de atividades físicas, cabe ao Estado garantir políticas nacionais para caminhada, ciclismo, esportes e outras atividades recreativas, de modo acessível e seguro a toda a população. Também fazem parte das políticas a implementação do Guia de atividade física para a população brasileira, do Ministério da Saúde (BRASIL, 2021a), e de programas de transporte, educação, desenho urbano etc., a fim de estimular a população a incorporar essa prática em seu dia a dia e nos diversos espaços que frequenta, como:

  • Escola – estudos mostram que atividades físicas melhoram o desempenho escolar dos alunos. É importante o incentivo dos estados e municípios para assegurar professores treinados, ambientes adequados e o envolvimento das famílias.
  • Trabalho – programas que promovem atividades físicas no local de trabalho se mostram eficazes quando:
  • encorajam o uso de escadas;
  • envolvem trabalhadores no planejamento e na implementação das atividades físicas;
  • envolvem as famílias por meio de autoaprendizado – ou seja, pessoas que trazem o hábito de se exercitar com a família estimulam outras no ambiente de trabalho –, de boletins informativos, festivais etc.;
  • ajudam o automonitoramento para estratégias de mudança de comportamento, pois ambientes com estímulos à atividade permitem ao indivíduo monitorar suas práticas; por exemplo, “hoje eu subi cinco lances de escada”.
  • Comunitário – aqui a intervenção é mais eficaz quando associa a prática de atividades físicas ao controle de glicemia, à dieta saudável, por exemplo, por meio de programas, cooperação, ou seja, parcerias entre poder público e empresas privadas, entre associação de moradores e setores comerciais, campanhas multissetoriais, com foco no objetivo comum a todos – a melhora na saúde.

Para a Organização Mundial da Saúde, a prática regular de atividade física associada à alimentação saudável é considerada uma “melhor aposta”, ou best buy, pois tem baixo investimento e excelentes retornos para a saúde (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).

A prática de atividade física no espaço comunitário também é considerada “melhor aposta”, na medida em que envolve grande contingente da população, baixo investimento e benefícios à saúde. Em geral, as comunidades dispõem de uma quadra que pode ser utilizada para diferentes atividades, como jogos, dança, ginástica etc.; uma praça para fazer caminhadas; um campo. No entanto, sabemos que em diversas localidades há carência de serviços públicos, como saneamento, segurança e outros. Nessas condições, a prática de atividade física pode ser um desafio a mais para as pessoas. Desafio para o qual devemos buscar soluções.

Foto: Jourbann Studios/Pexels.

Conhecer experiências bem-sucedidas e aprender é um caminho possível!

Saiba Mais

Ouça o podcast em que o professor Iury Coelho apresenta suas experiências de incentivo à prática de atividades físicas num espaço comunitário em Costa Barros, do Rio de Janeiro.

Transcrição do áudio

Em seu dia a dia profissional e pessoal, você percebe se as iniciativas de incentivo à prática de atividades físicas nas escolas, em locais de trabalho e nas comunidades estão em conformidade com as melhores apostas da OMS? Por quê? O que você sugere para fortalecê-las?

Melhores apostas na perspectiva intersetorial

Como já ressaltado, o conceito “Saúde em todas as políticas”, com vistas à redução das desigualdades e em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2022), abrange ações de outros setores além da saúde, como comércio, indústria, legislativo, econômico etc. Para isso, alguns requisitos devem ser considerados:

  • criação e fortalecimento de políticas e programas intersetoriais;
  • estratégias de organização de serviços em rede;
  • construção de governança de processos;
  • produção de informações direcionadas à tomada de decisão baseada em evidências;
  • controle social; e
  • inovação na gestão, na pesquisa e nos serviços de saúde.

O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030 apresenta em todo o seu escopo ações e diretrizes para a prevenção de DCNT, além de alguns exemplos, como (BRASIL 2021b):

  • Programa Academia da Saúde – construção de espaços que estimulem a atividade física, práticas corporais, lazer e modos de vida saudáveis, em articulação com a Atenção Básica em Saúde. 
  • Programa Saúde na Escola – universalização do acesso a incentivos materiais e financeiros do PSE a todos os municípios brasileiros, com o compromisso de realizar ações no âmbito da avaliação nutricional, avaliação antropométrica, detecção precoce de hipertensão arterial sistêmica, promoção de atividades físicas e corporais, alimentação saudável e segurança alimentar no ambiente escolar. 
  • Praças do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) – fortalecimento do componente da construção de praças do PAC 2, no Eixo Comunidade Cidadã, como instrumento de integração de atividades e serviços culturais, práticas esportivas e de lazer, formação e qualificação para o mercado de trabalho, serviços socioassistenciais, políticas de prevenção à violência e de inclusão digital, para todas as faixas etárias. 
  • Reformulação de espaços urbanos saudáveis – criação do Programa Nacional de Calçadas Saudáveis, construção e reativação de ciclovias, parques, praças e pistas de caminhadas. 
  • Campanhas de comunicação para incentivar a prática de atividade física e hábitos saudáveis, articuladas a grandes eventos, como a Copa do Mundo de Futebol (2014) e as Olimpíadas (2016).

Outras ações intersetoriais são recomendadas no Guia de atividade física para população brasileira (BRASIL, 2021a, p. 27), tais como:

Secretarias municipais/estaduais de saúde, esporte, lazer, turismo, meio ambiente, cultura, assistência social geralmente oferecem oportunidades, com quadras, pista de caminhada e outros espaços para a prática de atividade física. Verifique as que estão disponíveis próximo da sua casa, local de trabalho ou estudo.
Alguns programas públicos, como o Programa Academia da Saúde, Programa Saúde na Escola, o Segundo Tempo e o Esporte e Lazer na Cidade, e ações como “ruas fechadas” ou “ruas de lazer” proporcionam a prática de atividade física. Procure saber se seu município participa dessas ou de outras iniciativas.
Procure a unidade básica de saúde mais próxima; muitas oferecem programas e ações de atividade física.
Muitas universidades, faculdades e instituições do Sistema S (Sesc, Sesi, Sest/Senat e Senac) também oferecem programas de atividade física para a comunidade. Verifique os que estão disponíveis próximo da sua casa, local de trabalho e estudo.
O seu local de trabalho ou estudo pode oferecer estruturas que incentivem o deslocamento ativo, por exemplo: espaços para guardar a bicicleta, além de vestiários para tomar banho e trocar as roupas.

Nas intervenções locais bem-sucedidas, o estímulo do Estado por meio de políticas públicas e fomento é fundamental. Intervenções de larga escala no Brasil tiveram início na década de 1990, e a mais conhecida é o Programa Agita São Paulo. Outras, de longa duração, também existem nas cidades de Recife, Aracaju, Vitória, Curitiba, por exemplo. Mas só a partir de 2005 é que o apoio governamental impulsionou intervenções com financiamento (HALLAL, 2014). Outro exemplo de ação local exitosa é a Academia Carioca, centrada na inserção da prática de atividade física regular nas unidades básicas de saúde do município do Rio de Janeiro. Nesse programa, o acompanhamento de indivíduos com hipertensão arterial e diabetes constatou melhoras significativas nos níveis de pressão arterial e glicêmicos (JESUS; ENGSTROM; BRANDÃO, 2015).

Considerando a premissa de que promover atividade física é parte integrante das políticas públicas de promoção da saúde, como você avalia os incentivos do Estado no território em que vive e trabalha? Em que precisamos avançar?

Atividade 5

Identifique e relate uma ação no seu território que incentive a prática de atividades físicas. Contemple:

  • uma breve descrição da ação;
  • quando foi iniciada;
  • como é utilizada pela população.

Em seguida, reflita sobre essa ação e comente:

  • como essa iniciativa poderia ser fortalecida no seu território;
  • de que forma você pode contribuir para que isso aconteça.

Você pode estruturar sua atividade em formato de texto (até 400 palavras) ou de vídeo (até três minutos).

Caso opte pelo formato de vídeo, sua produção deverá ser postada em um serviço de nuvem ou streaming de sua escolha. Alguns exemplos desses serviços são: Google Drive, Dropbox, One Drive, YouTube e Vimeo. O vídeo deve ser disponibilizado em forma de link.

Envie sua atividade.

Considerações finais

A meta da OMS de redução de 10% do sedentarismo até 2025 é, sem dúvida, um grandioso desafio. Mas nas últimas décadas, com a implementação de estratégias para a promoção da atividade física no país, aprendemos muitas lições que desejamos compartilhar. Uma delas é a importância das intervenções para elevar o nível de atividade física da população a patamares eficazes serem integradas às estratégias de prevenção e controle das DCNT. O Programa Agita São Paulo e a Academia Carioca, já comentados, são exemplos de ações integradas, intersetoriais que contribuíram para mudanças na rotina da população. 

Outro alerta provém dos dados do Vigitel. Eles apontam que a prevalência de atividade física aumentou, mas não nos níveis desejados de abrangência de grande parte da população, o que exige vigilância e intervenções contínuas.

Relevantes, também, são as evidências científicas de que intervenções mais eficazes e com melhor custo-benefício são aquelas que atingem grande parte da população, e não em nível individual. Um exemplo de “melhor aposta” sugerida pela OMS para melhorar os níveis de atividade física populacional é a utilização de mídias de massa, por sua larga penetração.

Enfim, é importante reafirmar que o sedentarismo está na gênese da mortalidade de várias doenças crônicas, como diabetes, doenças cardiovasculares, câncer, e é urgente cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de elevação dos níveis de atividades física da população, de prevenção e controle das DCNT, e de redução dos índices de mortalidade.