Inicialmente, convidamos você para assistir ao vídeo 150 minutos de exercícios por semana, com recomendações simples da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a prevenção de várias doenças crônicas não transmissíveis.
Você faz parte do grupo de pessoas consideradas ativas, segundo a OMS? Em sua área de atuação os serviços de saúde participam de iniciativas que estimulam a prática de atividades físicas nas comunidades? Em que precisamos avançar?
Este módulo propõe discutir a estreita relação que há entre epidemiologia, atividade física, qualidade de vida e saúde física e mental, com base na literatura científica sobre a temática, que abrange múltiplas publicações e experiências bem-sucedidas de programas de promoção de atividades físicas nas comunidades. Os conteúdos selecionados para o estudo estão organizados em seções:

Conheça alguns mitos e verdades sobre a musculação na infância e adolescência, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
Já é consenso, em várias áreas do setor saúde, que a atividade física é importante para o desenvolvimento saudável. Deve ser praticada por todos, em qualquer idade e condição física, nas tarefas cotidianas e no deslocamento de um lugar para outro, ao longo da jornada de trabalho ou estudo, ao realizar tarefas domésticas e no tempo livre. Ela deve se tornar um hábito na vida do ser humano e quanto mais cedo for incentivada, maiores os benefícios para a saúde (BRASIL, 2021a).
A atividade física é boa para o coração, o corpo e a mente. A prática regular pode prevenir e ajudar a controlar doenças cardíacas, diabetes tipo 2 e câncer, que causam quase três quartos das mortes em todo o mundo. Também pode reduzir sintomas de depressão e ansiedade, aguçar o pensamento e a aprendizagem, proporcionar bem-estar geral, melhorar a disposição física e promover a interação social. Qualquer prática de atividade física é melhor do que nenhuma, e quanto mais, melhor (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).
Também não é uma invenção do nosso tempo! Sabe-se que o homem da pré-história enfrentava grandes desafios para sobreviver; ter força e condicionamento físico era crucial para se manter vivo, pois precisava andar muitos quilômetros em busca de lugares seguros e compatíveis com a vida, correr de animais ferozes, lutar com os da mesma espécie por comida, ou mesmo com outros animais. Tudo isso demandava que estivesse com ossos e músculos fortes para superar os obstáculos (RAMOS, 1983).
Com a civilização e o surgimento das guerras, a preparação física para as lutas passou a ser necessária. Na era industrial, grande parte das atividades, antes atribuídas à força física do homem, passou a ser desempenhada por equipamentos específicos. Com isso, o homem foi se tornando mais sedentário. Daí surgiu a necessidade de exercitar-se intencionalmente até chegarmos aos nossos dias e concluirmos que atividade física, mais que desenvolvimento de músculos e força, é fundamental para manutenção da saúde e prevenção de doenças (RAMOS, 1983).
Você sabia que existe uma diferença entre atividade física e exercício físico?
O Guia de atividade física para a população brasileira traz as primeiras recomendações e informações do Ministério da Saúde para que a população tenha uma vida ativa, essencial para a promoção da saúde e melhor qualidade de vida (BRASIL, 2021a). Dessa publicação, extraímos alguns conceitos importantes para iniciar a nossa conversa. Veja a seguir (BRASIL, 2021a, p.7, 9):

É um comportamento que envolve os movimentos voluntários do corpo, com gasto de energia acima do nível de repouso, promovendo interações sociais e com o ambiente. Pode acontecer no tempo livre, no deslocamento, no trabalho ou estudo e nas tarefas domésticas.
São exemplos de atividade física: caminhar, correr, pedalar, brincar, subir escadas, carregar objetos, dançar, limpar a casa, passear com animais de estimação, cultivar a terra, cuidar do quintal, praticar esportes, lutas, ginásticas, yoga, entre outros.
A atividade física faz parte do dia a dia e traz diversos benefícios, como o controle do peso e a melhora da qualidade de vida, do humor, da disposição, da interação com as outras pessoas e com o ambiente. Enfim, você pode fazer atividade física em quatro domínios da sua vida: no seu tempo livre; quando você se desloca; nas atividades do trabalho ou dos estudos; e nas tarefas domésticas.

Todo exercício físico é uma atividade física, mas nem toda atividade física é um exercício físico. Ou seja, o exercício físico é um tipo de atividade física planejada, estruturada e repetitiva, cujo objetivo é melhorar ou manter as capacidades físicas e o peso adequado.

Envolve atividades realizadas quando você está acordado e sentado, reclinado ou deitado, gastando pouca energia. Por exemplo, quando você está usando celular, computador, tablet, videogame e assistindo à televisão ou à aula, realizando trabalhos manuais, jogando cartas ou jogos de mesa, dentro do carro, ônibus ou metrô.
Assista à Entrevista com Pedro Hallal, coordenador geral do Guia de atividade física para a população brasileira, publicado em 2021. Ele explica o contexto em que foi elaborado e as perspectivas para a sua implementação por meio das políticas públicas.
Em sua rotina de trabalho, há hábitos sedentários entre os colegas e em você próprio? Que mudanças você propõe para manter todos ativos e saudáveis?
O sedentarismo é o quarto fator de risco para as DCNT. A Organização Mundial da Saúde estima que, em escala mundial, pelo menos uma em cada três pessoas não pratica os níveis de atividade física por ela recomendados (150 minutos de atividade moderada por semana). Entretanto, na região das Américas, essa proporção aumenta para uma em cada duas pessoas, elevando o risco de mortalidade em 20% a 30% (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011).
Muitos fatores contribuem para inibir a prática de atividade física, entre eles (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011):
Embora alguns efeitos do sedentarismo sobre a saúde sejam associados à obesidade, a atividade física, independentemente do peso, exerce efeitos protetores específicos ao reduzir o risco de DCNT e suas complicações. Em crianças, a prática de atividade física também está associada ao melhor desempenho escolar.
O planejamento das comunidades e das cidades e a capacidade das pessoas de se deslocarem em segurança a pé, de bicicleta ou utilizando o transporte público (o chamado “transporte ativo”) também parecem exercer influência importante sobre os níveis de atividade física e obesidade. Isso ressalta o quanto é importante o papel dos governos locais na promoção de ações dessa natureza, por meio de uma agenda multissetorial, conforme evidencia o estudo de Oliveira e Silva (2021).
Para Oliveira e Silva (2021), a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) é um dos mais bem-sucedidos exemplos de “Saúde em todas as políticas”, o que se aproximaria da ideia de agenda multissetorial, citada anteriormente.
Você conhece a expressão “Saúde em todas as políticas”?
Ela foi cunhada pela OMS, que considera a estreita relação entre determinantes da saúde, inequidade em saúde e fatores sociais, ambientais e econômicos. Por conseguinte, entende a promoção da saúde segundo uma visão ampliada, que abrange outros setores da sociedade, tradicionalmente não vinculados à saúde, como a área do direito, receita federal, comércio, parcerias público-privadas (PPP), marketing, até mesmo indústrias que não tenham conflitos de interesses com o setor saúde.
O Programa Nacional de Controle do Tabagismo, discutido no Módulo 2, é um exemplo bem-sucedido de política intersetorial. Entre os anos de 2011 e 2017, possibilitou reduzir em 31% a prevalência de consumo de tabaco.
Com base no conceito “Saúde em todas as políticas”, Oliveira e Silva (2021) propõem a necessária interação entre saúde e transporte público, para favorecer e estimular a prática de atividade física pela população brasileira. Os autores consideram o transporte ativo como um dos fatores que podem propiciar a redução da obesidade. Esse tipo de locomoção inclui o caminhar e o uso de bicicleta, patinetes, entre outros meios. Mas, para a sua implementação, é necessário que os gestores tenham um planejamento urbano que inclua ciclovias, iluminação pública adequada, mitigação da violência, segurança de pedestres, além de outras políticas.
Como exemplos de experiências bem-sucedidas de transporte ativo, destacam-se a cidade de Nova York, que construiu cerca de 73 quilômetros de ciclovias em 2015, o que resultou em um ano de vida saudável a mais para seus moradores (GU; MOHIT; MUENNIG, 2016); e a cidade de Londres, que incluiu em sua estratégia o programa Healthy Streets (Ruas Saudáveis), para estimular a população a caminhar, pedalar e usar transporte coletivo em seus deslocamentos diários. No Brasil, em 2015, Joinville, no estado de Santa Catarina, instituiu o Plano Diretor de Transportes Ativos, com diretrizes para ampliar os deslocamentos a pé e de bicicleta e promover melhorias das condições de calçadas, passeios e ciclovias.
Como você avalia o nível de comportamento sedentário da população em sua cidade? O que propõe para a implementação de um programa de transporte ativo?
Sobre transporte ativo, com foco no conceito “Saúde em todas as políticas”, leia o artigo Ciências da atividade física como protagonista de uma agenda multissetorial de pesquisa e advocacy na promoção da mobilidade ativa.
A redução de 10% no sedentarismo até 2025 é uma das metas do Plano de Ação Global da OMS para a Prevenção e o Controle das DCNT (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011), também endossada pelo Plano de Ação da Opas para a Prevenção e o Controle de DCNT nas Américas (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2016, p. 14). No entanto, segundo Guthold et al. (2018), essa meta não deverá ser cumprida, pois mais de 1,4 bilhão de adultos em todo o mundo não praticam atividades físicas suficientes.
Os estudos de Guthold et al. (2018) corroboram as estimativas analisadas pela OMS ao demonstrarem que houve pouco progresso na melhoria dos níveis de atividade física entre 2001 e 2016. Os dados apontam que, se as tendências atuais continuarem, a meta global de 10% de redução da inatividade não será atingida até 2025 (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011).
Conheça os estudos de Guthold et al. (2018) no artigo Worldwide trends in insufficient physical activity from 2001 to 2016: a pooled analysis of 358 population-based surveys with 1.9 million participants.
A OMS também estima que 3,2 milhões de pessoas morrem a cada ano devido à inatividade física. Pessoas que são insuficientemente ativas têm entre 20% e 30% de aumento do risco de todas as causas de mortalidade. A prática de 150 minutos de atividade física moderada, por semana, reduz o risco isquêmico de doença cardíaca em aproximadamente 30%; o risco de diabetes, em 27%; e o risco de câncer de mama e cólon, em 21% e 25%, respectivamente. Além disso, diminui o risco de acidente vascular cerebral, hipertensão arterial, depressão, e contribui para o controle do peso corporal (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011). A Figura 1 compila as DCNT decorrentes.
Figura 1 – Sedentarismo e obesidade

Você já ouviu falar sobre neurociência do exercício?
Refere-se a um campo da ciência que estuda como a prática de atividade física pode promover benefícios para a nossa saúde física, mental e social. Alguns autores destacam que essa pratica pode aumentar o nível de atenção, especialmente a concentração; melhorar a capacidade de retenção e recordação de memórias de curto e longo prazos; aumentar a capacidade de processos cognitivos; promover maior oxigenação das áreas cerebrais, dentre outros. Essas são algumas evidências da neurociência que relacionam a prática de atividades físicas aos processos cognitivos (ROCHA, 2019).
Pesquisas nessa área investigam os efeitos do exercício físico no funcionamento do cérebro. O Laboratório de Neurociência do Exercício (LaNex/UFRJ), criado pela professora Andrea Deslandes em 2010, apresenta duas linhas de pesquisa que avaliam “Exercício físico e Saúde mental” e “Exercício físico e Cognição”.
Evidências científicas vêm corroborando que o exercício físico tem ótimos resultados na saúde mental ao proporcionar a liberação de neurotransmissores, diminuindo mecanismos inflamatórios e melhorando a resposta imune; com isso, ocorrem maior autoestima e melhora dos sintomas de depressão, ansiedade, transtorno bipolar, dentre outros (GUERRERO-JIMÉNEZ, 2023).
O exercício físico também impacta na neurocognição, porque afeta várias funções cognitivas, desde a memória e atenção até o desempenho escolar. Quando fazemos exercícios, modificamos um pouco o modo como o nosso cérebro funciona; ele produz substâncias essenciais para cognição, aprendizado, saúde do cérebro, saúde mental. Os exercícios estimulam a produção de novos neurônios no hipocampo – uma área essencial para o nosso aprendizado –, no qual formamos novas memórias. Isso além de criar novos vasos, que promovem o aporte de nutrientes e oxigênio no cérebro. A produção de neurotransmissores durante e após os exercícios também atua na cognição e na regulação do aprendizado, da atenção, do prazer e da motivação.
São substâncias químicas produzidas pelos neurônios e usadas para transmitir informação entre eles (BRENNENSTUHL et al., 2019).
Considerando a relação entre exercício físico e aprendizagem, temos dado a devida atenção às aulas de educação física em nossas escolas? Que benefícios essas aulas vêm propiciando aos estudantes?
Ouça o podcast Exercício físico e cognição, em que os professores Andrea Deslandes e Daniel Kreuger, da UFRJ, conversam sobre ganhos cognitivos nos alunos.
Estudos realizados por Ai et al. (2021) concluíram que campanhas de incentivo à prática de atividades físicas foram associadas a mudanças no comportamento sedentário; no entanto, a reação é mais incorporada quando as campanhas são positivas, ou seja, referem-se diretamente aos benefícios para a saúde, como melhora da disposição física, da memória, prevenção do câncer etc. Também concluíram que campanhas que relacionam o sedentarismo ao risco de doenças crônicas podem ser ineficazes, sobretudo em idosos (AI et al., 2021). Enfim, a prática de atividade física repercute não só na nossa saúde física, como também na saúde mental, cognição e memória, ampliando o escopo do campo das ciências e interligando neurociência e exercício.
De acordo com a OMS, 31% dos adultos maiores de 15 anos em todo o mundo estavam insuficientemente ativos em 2008 – 28% de homens e 34% de mulheres (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011).
O Gráfico 1 apresenta a distribuição das regiões do mundo segundo a OMS, o percentual da população ativa por homens e mulheres, bem como a estratificação por renda. As estratificações apontam que os homens são mais ativos que as mulheres em todas as regiões, e que a população é mais ativa em regiões com maior renda.
Gráfico 1 – Prevalência de atividade física insuficiente em adultos com mais de 15 anos, por idade, região da OMS e grupo de renda do Banco Mundial. Estimativas comparáveis, 2008

No Brasil, os padrões de atividade física da população passaram a ser estudados recentemente. O inquérito telefônico Vigitel Brasil 2006-2021 (BRASIL, 2022) avalia a atividade física em quatro domínios e considera o primeiro como o mais passível de intervenção. São eles:
O inquérito conclui que entre os adultos residentes nas capitais do Brasil, a prática de, no mínimo, 30 minutos de atividade física passou de 14,8% em 2006 para 14,9% em 2010. Homens e jovens com maior escolaridade são os mais ativos. Em 2010, 14,2% dos adultos foram considerados inativos, e 28,2% relataram assistir a três ou mais horas de televisão por dia (BRASIL, 2022). Entre os adolescentes, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), 43,1% dos alunos avaliados foram considerados suficientemente ativos (com, pelo menos, 300 minutos de atividade física acumulada nos últimos sete dias); no entanto, 79,5% gastam mais de duas horas por dia em frente à televisão (IBGE, 2019).
A Opas (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2016) e a OMS (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020) recomendam 150 a 300 minutos de atividade aeróbica moderada a vigorosa por semana para adultos, incluídos os portadores de doenças crônicas ou incapacidades; e uma média de 60 minutos por dia para crianças e adolescentes.
Considerando os quatro domínios em que o Vigitel Brasil 2006-2021 avalia a prática de atividade física (BRASIL, 2022) e a realidade do território em que atua, que estratégias você sugere para compor o plano de prevenção das DCNT?
Estudo com dados do Vigitel 2019 evidenciou que a prática de atividade física no tempo livre está associada a fatores sociodemográficos e hábitos saudáveis, sendo mais prevalente entre os mais jovens, do sexo masculino, com maior escolaridade, cor branca, com plano de saúde, não fumantes e que consomem frutas e hortaliças (BRASIL, 2020). Ao comparar os dados do Vigitel 2010 e 2019, verificou-se nesse extrato da população um crescimento de cerca de 10% na prática de atividade física durante o tempo livre (Figura 2) (BRASIL, 2021b).
Figura 2 – Monitoramento da prática de atividade física de 2010 e 2019, capitais brasileiras e Distrito Federal
Com base nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, notadamente o ODS 3, Saúde e Bem-Estar Social, que recomenda no item 3.4 reduzir em um terço a mortalidade prematura por DCNT (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2022), o Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030 propõe metas para a redução da inatividade física (BRASIL, 2021b), conforme apresenta a Figura 3.
Figura 3 – Grupo de indicadores e metas para os fatores de risco para as DCNT

O Gráfico 2 assinala a evolução do acréscimo de 30% na prevalência de atividade física no lazer até 2030.
Gráfico 2 – Monitoramento da meta, valor observado e previsto da prevalência da prática de atividade física no tempo livre em adultos (≥ 18 anos) no conjunto das capitais brasileiras e no Distrito Federal, 2009 a 2030
Retomando a recomendação da Opas (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2016) e da OMS (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020) sobre a prática de atividade física moderada ou vigorosa para todos, que benefícios ela também proporciona à saúde mental e às pessoas com deficiência?
Estudo de Lima et al. (2020) aponta que transtornos mentais, em geral, podem estar relacionados a maior risco para tabagismo, hipertensão e diabetes; pessoas com esse diagnóstico têm risco aumentado de 1,4% a 2,0% de desenvolver doenças cardiometabólicas em comparação com indivíduos sem transtornos mentais. Cada vez mais surgem evidências na literatura científica sobre benefícios da atividade física à saúde mental; entre eles (HOSKER; ELKINS; POTTER, 2019):
Para as pessoas com deficiência, os benefícios também são evidentes, especialmente para melhor qualidade de vida, conforme destacado no Guia de atividade física para a população brasileira (BRASIL, 2021a, p. 44):
A prática de atividade física para todos remete ao conceito “Saúde em todas as políticas”. Que desafios você vislumbra para implementar um programa com essa magnitude? Que políticas públicas poderiam apoiá-lo?
Antes de tratar das melhores apostas, cabe ressaltar que são evidências científicas que corroboram a inequívoca necessidade da prática diária e constante de atividade física para todas as pessoas, sem qualquer distinção, seja para a manutenção da saúde, seja para a melhora de algumas condições crônicas já estabelecidas. Portanto, associar o corpo esbelto e belo à prática da atividade física, como fazem as redes e mídias sociais, é uma visão sem respaldo científico e de exclusão social, e a população deve estar ciente disso.
Sobre as melhores apostas, no Plano de Estratégia Global para Prevenção e Controle de Doenças não Comunicáveis (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2011) a OMS estimula os estados-membros a promover ações para elevar os níveis de atividade física na população, da seguinte forma (BRASIL, 2021a):
Em sua cidade, a premissa de que a atividade física é para todas as pessoas de todas as idades vem sendo considerada nas iniciativas públicas de incentivo à prática? Em que precisamos avançar?
Para conhecer outras recomendações sobre a prática de atividades físicas em todos os ciclos da vida, assista ao vídeo Atividade física.
Consoante as recomendações da OMS, em especial sobre as melhores apostas para a prática regular de atividades físicas, cabe ao Estado garantir políticas nacionais para caminhada, ciclismo, esportes e outras atividades recreativas, de modo acessível e seguro a toda a população. Também fazem parte das políticas a implementação do Guia de atividade física para a população brasileira, do Ministério da Saúde (BRASIL, 2021a), e de programas de transporte, educação, desenho urbano etc., a fim de estimular a população a incorporar essa prática em seu dia a dia e nos diversos espaços que frequenta, como:
Para a Organização Mundial da Saúde, a prática regular de atividade física associada à alimentação saudável é considerada uma “melhor aposta”, ou best buy, pois tem baixo investimento e excelentes retornos para a saúde (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).
A prática de atividade física no espaço comunitário também é considerada “melhor aposta”, na medida em que envolve grande contingente da população, baixo investimento e benefícios à saúde. Em geral, as comunidades dispõem de uma quadra que pode ser utilizada para diferentes atividades, como jogos, dança, ginástica etc.; uma praça para fazer caminhadas; um campo. No entanto, sabemos que em diversas localidades há carência de serviços públicos, como saneamento, segurança e outros. Nessas condições, a prática de atividade física pode ser um desafio a mais para as pessoas. Desafio para o qual devemos buscar soluções.

Conhecer experiências bem-sucedidas e aprender é um caminho possível!
Ouça o podcast em que o professor Iury Coelho apresenta suas experiências de incentivo à prática de atividades físicas num espaço comunitário em Costa Barros, do Rio de Janeiro.
Entrevistadora: Atividade física – esse é um tema que tem mobilizado muitas discussões sobre vida saudável, certamente pela importância que uma postura mais ativa tem na redução de fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. Mas como conciliar uma vida mais ativa com as demandas da vida cotidiana?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, muitos fatores contribuem para a inibição da prática de atividade física, como, por exemplo, automatização de muitas funções no trabalho, a inexistência de equipamentos de esporte de lazer na cidade, o medo da violência... É necessário pensar estratégias de fortalecimento de um comportamento mais ativo por parte das pessoas. E é nesse contexto que trazemos a discussão daquilo que chamamos de melhores apostas para caminhar na direção de uma vida mais saudável.
A prática de atividade física no espaço comunitário é também considerada uma dessas melhores apostas, na medida em que envolve grande contingência da população, baixo investimento e benefícios à saúde. É para compartilhar com a gente a experiência de uma promoção de prática de atividade física no espaço comunitário que a gente hoje está aqui com Iury Coelho. O Iury é profissional de educação física, que trabalha em uma grande rede nacional de academias, mas que vem também desenvolvendo projetos ligados a uma vida mais ativa em outros espaços.
Seja bem-vindo, Iury!
Iury, conta pra gente: Você sempre praticou atividade física, mesmo não sendo um profissional da área?
Iury: Desde sempre... desde os 5 anos de idade, talvez, foi quando eu tive o primeiro contato com o esporte. E com capoeira, comecei com capoeira, bem pequenininho, porque logo depois de sair da capoeira, eu entro no futebol. E aí, com o futebol, praticamente boa parte da minha vida até aqui é envolvimento com o futebol. Inclusive no alto rendimento, a minha ideia era me tornar um jogador de futebol. Então fiz futebol até os meus 18 anos, e aí tive que interromper por questões familiares, e aí eu falo: "não, espera aí, se eu não vou ser um jogador de futebol, vou entrar na educação física. Porém, a ideia nunca foi ser um treinador de futebol, em momento nenhum. Não, vou pra educação física, vou aprender alguma coisa... minha ideia era ser professor de escola. E aí, tô aqui agora, como professor de musculação, de aulas coletivas, enfim. Mas, desde sempre, sempre fui ativo, né? Desde os 5 anos.
Entrevistadora: Que bacana! E tem uma coisa com o coletivo, né? Que eu percebo nessa tua fala, que vem do futebol, que vem das aulas coletivas que você pratica, e a gente sabe que você fez uma ação coletiva, né? Na sua comunidade, né? Como é que foi chegar nesse espaço pra implantar a ação? Como é que a comunidade te apoiou na iniciativa? Você teve resistência dos moradores? Conta um pouco essa história pra gente.
Iury: Então, lá em Costa Barros, especificamente, a gente não tinha nenhum tipo de local que tivesse atividade física ali. Por ser na comunidade, ter difícil acesso, tudo isso. A maioria dos locais que têm atividade física são em volta, em outros bairros. Então, tinha esse deslocamento. Então, a partir daí, eu tive a ideia: eu vou fazer alguma coisa aqui, que é o local que eu sempre cresci e nunca teve nada.
E aí, para locar esse espaço, essa quadra, que era onde eu dava aula, antes disso eu tentei fazer dentro desse espaço que tinha antes, que era completamente coberto, que era da Associação de Moradores. Então, assim, a conversa inicial foi muito Ok, foi muito tranquila de se fazer, mas depois que eu estava começando a limpar o local e fazer tudo o que deveria ser feito, eu comecei a notar resistência. Porque até então, a ideia era que fosse gratuito, então, eu iria disponibilizar meu tempo pra servir a comunidade, e eles queriam um tipo de retorno financeiro, de alguma forma que fosse, porque eu estaria usando um espaço que era deles.
Então eu falei, não, eu não vou fazer dessa forma. Vou fazer na quadra. E aí quando eu começo a fazer na quadra e fica muito mais visível, foi aonde eu posso dizer que foi o estouro que teve a atividade, porque sendo num local fechado, muita gente não via. Por mais que tivesse um banner mostrando que tinha uma coisa ali, a galera não via. Quando veio pra quadra, um espaço público, completamente, porque não tinha ninguém que fizesse algum tipo de administração daquele local. E aí foi assim: quanto mais gente passava a fazer atividade, parecia que a cada aula ia um novo, na aula seguinte iam dois novos. "ah, eu trouxe minha prima, trouxe fulano, trouxe cicrano... beleza.
E aí, de uma aula, que era o meu intuito, tornaram-se três aulas. De 6h às 7h, de 7h às 8h e 8h às 9h da manhã. E sempre com aquela relação assim, sempre que ia alguém novo: "Caramba, vai precisar de mais gente, vai precisar de mais aula, vai precisar de alguém pra me auxiliar aqui. O tempo foi passando e essas retaliações foram diminuindo, diminuindo, até que cessaram. Então, precisei de cerca de 8 meses assim, pra falar assim: "caraca, agora não tem mais ninguém aqui sondando e observando pra ver como era."
Mas os moradores super abraçaram a ideia por aquele motivo, né? Não tinha nada ali perto. Depois disso a gente começou a lidar com um outro cenário, né? Se tratando de uma comunidade, não tinha antes, quando eu iniciei, por exemplo, uma boca de fumo próximo. Depois de alguns meses fazendo, implantaram uma em frente à quadra. Definitivamente em frente. Então, tiveram vários, vários e vários momentos em que eu estava descendo pra dar aula e aí o pessoal mandar mensagem dizendo: "Iury, não desce porque deu tiro por aqui." Já teve, de lembrança, umas 3 vezes que a gente estava tendo aula e, do nada, ter que se jogar no chão porque começou um tiroteio assim, bem próximo da gente.
Então, assim, esse desafio era um dos que talvez... eu ficava mais assim: será que vale a pena continuar fazendo? Mas, ao mesmo tempo que dava isso, a gente passava aquilo ali, e aí todo mundo levantava do chão e falava assim: "Ó, vamos continuar a aula, né?" Não tinha aquela coisa assim: "Não, vou embora porque é perigoso." E aí era engraçado. Não tinha um retorno financeiro, mas tinha aquela relação de "Caraca, eu estou fazendo algo que as pessoas estão gostando".
Talvez essa relação de, de alguma forma, conseguir auxiliar as pessoas ali, era basicamente o combustível que fazia permanecer. Inclusive diante desse cenário, que era completamente caótico.
Entrevistadora: Em alguns momentos, é verdade, que você pensou em desistir?
Iury: Sim, certo. Vários momentos. Principalmente quando acontecia isso, sério, assim. Propostas de trabalho, enfim, apareciam, né? Com certeza, mas tinha uma coisa que me fazia ficar ali. Propostas financeiras muito boas já recebi, inclusive pra outros tipos de projeto nesse sentido, porque o que eu fazia estava dando e era completamente independente. Era eu por mim mesmo. Tudo o que tinha lá de material saiu do meu bolso?
E aí vinham, sim, outras ofertas, enfim, mas nada disso era... tinha alguma coisa ali que o dinheiro não comprava. E isso me fazia permanecer. Mas, sinceramente, ver várias vezes um tiroteio próximo, vinha aquele temor "estou colocando a vida de pessoas em risco". Mas ao mesmo tempo vinha assim: "não, você não está colocando a vida de ninguém em risco. Você está fazendo alguma coisa e, infelizmente, os ócios do local, eles fazem com que vocês se encontrem em perigo em determinas situações."
Então, esses momentos, que não eram isolados, eram eles eram frequentes. Infelizmente, do meio pro final, talvez do ano de 2022, foi um período muito difícil. Porque estava praticamente toda semana, a gente tendo esse tipo de problema. E aí foi a hora de falar assim: "Acho que eu vou ter que parar com isso aqui."
Entrevistadora: Durante quanto tempo você realizou esse projeto?
Iury: Foram 2 anos, praticamente. Dois anos e meio, na verdade.
Entrevistadora: Na sua avaliação, dessa experiência toda, qual você acha que foram os principais resultados? Porque agora o projeto não está mais acontecendo lá, mas e para aquelas pessoas que participaram... de mudança de vida, de postura, de construção de um hábito saudável em relação à atividade física... Você acha que teve esse tipo de retorno? Teve um movimento na comunidade em direção a isso? O que fica no lugar quando o projeto sai?
Iury: O primeiro ponto, é eu passar na rua e todo mundo falar comigo, né? (risos) Aquela relação assim: "Quando você vai voltar a fazer? Quando você vai voltar pra quadra? Pô, era muito bom; Pô, eu ia lá." Tinha muitas promessas de que as pessoas iriam, mas estava ficando insuportável de tanta gente que tinha. E a gente está falando de uma quadra de futsal, que não é pequena.
Acho que o que fica são as mudanças que foram feitas ali. Ainda que a minha pauta principal fosse afetar a comunidade de alguma forma, tem as mudanças corporais individuais, né? A gente teve o início de uma pandemia, basicamente e quando começou a flexibilizar algumas coisas eu comecei essa aula. Então a gente tinha uma pandemia ali acontecendo e ao mesmo tempo muitas pessoas com sobrepeso e obesidade, autoestima baixa, pessoas que tinham perdido emprego, pessoas que estavam completamente desestimuladas por causa dessa pandemia. Eu falei, poxa, talvez... talvez não, né? Esse exercício físico vai ser uma coisa boa nisso aqui. E aí, assim, sinceramente, eu não imaginava o impacto que eu poderia gerar. Ou o impacto que eu gerei nessas pessoas.
Uma pessoa marcante pra mim ali foi uma moça, por exemplo, que tinha cerca de 120 quilos. Ela falou "eu tenho vergonha, no WhatsApp dela, eu tenho vergonha de sair de casa". Como é que eu vou conseguir chegar aí. Tem muita gente." Eu falei: "não, faz o seguinte, eu vou te buscar em casa, eu vou todo dia passar pela sua casa, eu busco você e a gente vai pra lá". E aí, assim, passaram-se 3 meses, ela baixou pra 100 quilos. Mas baixou para 100 quilos numa diferença absurda. E aí tá a gente descendo toda vez, indo pra lá. E aí as mudanças começam: "caraca, eu vi o que você fez com fulana, eu vi o que você fez, enfim."
E aí, olhar pra isso que se torna uma mudança nela, uma mudança de quem está em volta, uma mudança de uma pessoa que fala "caraca, fulana conseguiu, eu vou lá também". Então, assim, tivemos muitas pessoas mudando o peso corporal; e não só isso, mas melhorando a autoestima. Eu acho que foi o ponto, assim, de você, mesmo no meio de tudo o que estava acontecendo, a gente tinha ali a frequência de todo mês, né, toda última aula do mês, a gente fazia o aniversariante do mês. Então a gente reunia o pessoal e todo mundo ali feliz e contente, assim, pessoas que às vezes se viam na padaria e não se falavam e se tornaram amigas. E assim vai desenvolvendo. Então, acho que esse impacto de mexer com a autoestima e com a saúde das pessoas ficou.
E pro local, é aquela relação assim, do que eu sempre ouço, até meus pais, que ainda moram lá, e tal. As pessoas olham pra lá e falam: por que seu filho não volta pra cá? Pô, ele poderia até cobrar que a gente pagava pra ele ficar aqui. Então, assim, hoje tem aquele sentimento de "poxa, aconteceu um negócio aqui que foi muito bom". Então, tem uma memória afetiva muito boa. E logo depois disso, agora, acontece lá, tem um rapaz que começou a dar aula de futsal lá pra algumas crianças. Então, também gratuito. Ele tem essa mesma questão. Ele até fala comigo: "vamos fazer juntos"; pô, cara, juntos para mim, no momento, não dá mais, então ele deu sequência. Então ele está lá hoje dando aula pra várias crianças. Então, assim, bem ou mal aquela quadra que não era utilizada pra nada, ela ganhou pintura, ganhou novas grades. O pessoal começou a "tem alguma coisa acontecendo aqui?". Fizeram algumas melhorias na quadra, graças a Deus. E aí está lá agora rolando o futsal pras crianças, então. Ficou, sim, um legado de esporte, bem ou mal.
Entrevistadora: Que bacana, né? E trabalhar isso com as crianças é muito rico, né? Porque vai criando a cultura de um hábito saudável de atividade física, que se perpetua ao longo da vida e vai mitigando o desenvolvimento, né, e a instalação de doenças crônicas não transmissíveis, que são aí uma grande epidemia que a gente tem visto na saúde pública, no mundo, né?
Eu queria te fazer mais uma última pergunta, antes da gente terminar o nosso podcast, que seria um pouco no sentido de, para alguém que quer fazer uma atividade assim, bacana como essa que você fez, implementar um espaço que era importante para você, que é um espaço onde você viveu sua vida inteira, que você tinha laços sociais e afetivos, implementar uma atividade bacana que potencializasse aquele grupo local ali, né? Que dicas você daria? Que sugestões você daria? Que sugestões você daria para não se fazer também? Porque a gente aprende muito com o não fazer, né? E que caminhos seriam possíveis, porque você fez uma ação totalmente voluntária; mas a gente sabe que isso é muito difícil, inclusive de se sustentar. Por isso você teve que interromper também a continuidade desse projeto. Mas que mecanismos você enxerga, se você conhece alguns, que possibilitariam uma maior perenidade de ações desse tipo?
Iury: Eu acho que ter uma parceria no início é muito fundamental. No meu caso, eu tive os alunos, os moradores ali como parceiros, né? Mas eu digo uma parceria mais de fora, sem ser dos alunos. Por mais que a gente tenha vontade de fazer algo ali dentro, para a comunidade e tudo mais, ter um aporte pra a gente, na condição de profissional que quer fazer alguma coisa, acho que é muito fundamental. Porque isso sai somente da nossa força, do nosso esforço, né? É, eu sempre falo com o pessoal, até estimulei alguns amigos que se formaram comigo a fazerem a mesma coisa nas suas devidas comunidades: "olha, faz, que é muito bom, se você tem isso na sua, no seu coração, faz, precisa ser feito. Principalmente em lugares que não se tem nada. Então eu sempre estimulo que se faça nas condições que se tem, mas se puder ter o auxílio, OK.
Trabalhar com pessoas, estar com pessoas, principalmente de comunidades carentes, eu acho que tem muito um trabalho de você trazer a pessoa pra cima. Talvez, pelo menos na minha prática, eu vi muito um olhar de "não vou conseguir; poxa, eu não consigo muita coisa, não consigo dar sequência em coisas da minha vida". Isso por mais que, no meu caso, muitas pessoas falavam em relação ao exercício físico, a gente sabe que isso é só um reflexo da vida. A gente tem essa ideia de um olhar mais inferiorizado de nós mesmos pela condição que a gente mora, pela dificuldade que a gente vive.
Dentro desse ambiente, ter essa voz que encoraje as pessoas a fazerem algo, é primordial. Eu acho que se tem um jeito de ganhar as pessoas para estar junto com você nisso, é ter essa voz. Seria até ter uma voz de esperança, se é que eu posso dizer essa palavra. Porque foi nesse sentido que fez com que as pessoas se mantivessem ali comigo, ou poderiam ter continuado até hoje se eu continuasse ali. A parceria que eu falei, ela é muito fundamental, até para permanecer nesse projeto mais por mais tempo, com mais vitalidade. Eu acho que se ao invés da retaliação que eu recebi no início eu tivesse o aporte da associação de moradores, por exemplo, já seria um aporte. E poderia fazer com que se perpetuasse de uma outra maneira, tendo talvez mais professores junto comigo, talvez revezando, fazendo com que isso fosse expandido, talvez, pra outros horários, e se tornasse algo maior. Então eu acho que a parceria é o fundamental.
E ter esse olhar de esperança também, são dois fundamentos, assim, pra mim, inegociáveis nesse momento. E se a gente olhar aquilo ali só como mais um trabalho, isso tende a ruir. Então, não é esse o caminho. O caminho é "olha, eu vou transformar as pessoas.". E quando eu falei aqui no início que eu não sabia que esses valores fariam, traria um impacto tão grande, é um impacto muito grande. Eu tive ali, Ana, mais de 150 pessoas.
Assim, em momento nenhum eu pensei que poderia alcançar tanta gente, sabe? Então, é o que fica.
E o que eu aconselharia é: encontre outras pessoas. E mantenha a esperança, é o que sustenta esse tipo de coisa.
Entrevistadora: Que maravilha, Iury, nossa... sem palavras pra agradecer o seu compartilhamento dessa experiência com a gente. Acho que pode ser bastante inspiradora pra vários alunos do nosso curso. Pra gente tentar pensar em ações locais que possam fortalecer a percepção da importância da atividade física pra vida saudável, e uma vida saudável que a gente entende como uma coisa ampla, né? Assim, saudável que tem a ver com a cabeça, que tem a ver com autoestima, que tem a ver com a saúde física, né? Então, muito obrigada por compartilhar essa experiência com a gente.
Iury: Eu que agradeço, Ana.
Em seu dia a dia profissional e pessoal, você percebe se as iniciativas de incentivo à prática de atividades físicas nas escolas, em locais de trabalho e nas comunidades estão em conformidade com as melhores apostas da OMS? Por quê? O que você sugere para fortalecê-las?
Como já ressaltado, o conceito “Saúde em todas as políticas”, com vistas à redução das desigualdades e em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2022), abrange ações de outros setores além da saúde, como comércio, indústria, legislativo, econômico etc. Para isso, alguns requisitos devem ser considerados:
O Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas e Agravos Não Transmissíveis no Brasil 2021-2030 apresenta em todo o seu escopo ações e diretrizes para a prevenção de DCNT, além de alguns exemplos, como (BRASIL 2021b):
Outras ações intersetoriais são recomendadas no Guia de atividade física para população brasileira (BRASIL, 2021a, p. 27), tais como:
Nas intervenções locais bem-sucedidas, o estímulo do Estado por meio de políticas públicas e fomento é fundamental. Intervenções de larga escala no Brasil tiveram início na década de 1990, e a mais conhecida é o Programa Agita São Paulo. Outras, de longa duração, também existem nas cidades de Recife, Aracaju, Vitória, Curitiba, por exemplo. Mas só a partir de 2005 é que o apoio governamental impulsionou intervenções com financiamento (HALLAL, 2014). Outro exemplo de ação local exitosa é a Academia Carioca, centrada na inserção da prática de atividade física regular nas unidades básicas de saúde do município do Rio de Janeiro. Nesse programa, o acompanhamento de indivíduos com hipertensão arterial e diabetes constatou melhoras significativas nos níveis de pressão arterial e glicêmicos (JESUS; ENGSTROM; BRANDÃO, 2015).
Considerando a premissa de que promover atividade física é parte integrante das políticas públicas de promoção da saúde, como você avalia os incentivos do Estado no território em que vive e trabalha? Em que precisamos avançar?
Identifique e relate uma ação no seu território que incentive a prática de atividades físicas. Contemple:
Em seguida, reflita sobre essa ação e comente:
Você pode estruturar sua atividade em formato de texto (até 400 palavras) ou de vídeo (até três minutos).
Caso opte pelo formato de vídeo, sua produção deverá ser postada em um serviço de nuvem ou streaming de sua escolha. Alguns exemplos desses serviços são: Google Drive, Dropbox, One Drive, YouTube e Vimeo. O vídeo deve ser disponibilizado em forma de link.
A meta da OMS de redução de 10% do sedentarismo até 2025 é, sem dúvida, um grandioso desafio. Mas nas últimas décadas, com a implementação de estratégias para a promoção da atividade física no país, aprendemos muitas lições que desejamos compartilhar. Uma delas é a importância das intervenções para elevar o nível de atividade física da população a patamares eficazes serem integradas às estratégias de prevenção e controle das DCNT. O Programa Agita São Paulo e a Academia Carioca, já comentados, são exemplos de ações integradas, intersetoriais que contribuíram para mudanças na rotina da população.
Outro alerta provém dos dados do Vigitel. Eles apontam que a prevalência de atividade física aumentou, mas não nos níveis desejados de abrangência de grande parte da população, o que exige vigilância e intervenções contínuas.
Relevantes, também, são as evidências científicas de que intervenções mais eficazes e com melhor custo-benefício são aquelas que atingem grande parte da população, e não em nível individual. Um exemplo de “melhor aposta” sugerida pela OMS para melhorar os níveis de atividade física populacional é a utilização de mídias de massa, por sua larga penetração.
Enfim, é importante reafirmar que o sedentarismo está na gênese da mortalidade de várias doenças crônicas, como diabetes, doenças cardiovasculares, câncer, e é urgente cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de elevação dos níveis de atividades física da população, de prevenção e controle das DCNT, e de redução dos índices de mortalidade.